Saúde mental

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011 às 14:05


   Esta semana eu tive uma grande oportunidade. A oportunidade de estar visitando um hospital psiquiátrico, o qual a minha mãe trabalha. Como acadêmica em enfermagem é claro que eu fiquei super empolgada com a idéia de passar algumas horas lá dentro, e foi uma experiência única. Portanto, eu gostaria de estar compartilhando aqui com vocês. 

   Eu já tinha ouvido muitas histórias da minha mãe, as experiências, como era lá dentro, como era o comportamento das pacientes, como funcionava o hospital, mas nada traduzia a sensação de ver tudo aquilo pessoalmente. 

   O prédio era muito grande, há muitas alas inativas, é um prédio antigo, com uma praçinha bem bonita e ampla no meio. Em um mesmo lado, mas separado por um prédio e muitas grades, a ala masculina e a feminina, a minha mãe trabalha na feminina. Apesar de precisarem de pessoas de porte grande e muita força na masculina, pois quando eles surtam e precisam ser contidos não é qualquer um que dá conta, em geral é na feminina que há os escândalos maiores. Não é novidade, certo? Pois mulheres já são desiquilibradas normalmente, imagina com doenças mentais. Bom, mas brincadeiras à parte, as mulheres são mais emocionais de fato, e isso faz com que elas queiram mais atenção, e vão fazer da forma delas para chamar essa atenção. Quando a gente entra no pátio, vem várias em sua direção, falando coisas bem sem sentido e te tocando, querendo abraçar os médicos e enfermeiras. E até a mim, que confesso, fiquei com medo. 

   Logo que cheguei e fui com as enfermeiras até o vestuário, passamos por uma área aberta, de cara uma mulher totalmente nua andando e fazendo barulhos semelhantes à um bicho selvagem na selva, a outra gritando para nós, vamos no baile! As outras contavam histórias de Lady Kate, falavam que estavam curadas e que o Barão havia depositado dinheiro na sua conta. Várias vinham em nossa direção com o olhar paralisado, movimentos semelhantes aos de zumbis (aqueles mesmo que agente vê em filmes do tipo Resident Evil). Às 13:30 começava a rotina do banho da tarde, são mais ou menos 70 mulheres, metade toma banho de manhã e metade a tarde. Mas nem todas tomam banho todos os dias, algumas fogem, outras se escondem e outras surtam. 

   Eu fiquei a maior parte na enfermaria do hospital, onde tinha janela para o pátio e contato com elas pela grade, mas ao mesmo tempo elas não podiam entrar ali, eu me sentia de certa forma "segura". Eu sei que isto soa desumano, mas desumano é a condição mental dessas pessoas, logo mais falarei disso. Pois bem, ali no posto eram preparados os medicamentos, ali ficam os prontuários, haviam algumas camas na enfermaria (inclusive, todas cheias), e também, bem próximo dali estava o refeitório e a sala dos médicos psiquiatras e psicólogos. A dieta delas é elaborada e balanceada pela enfermeira chefe, que comanda as técnicas de enfermagem e também é responsável pelo posto. Achei interessante também, que na troca de plantão é o enfermeiro chefe da manhã que passa o relatório para o(a) enfermeiro(a) da tarde, e não de médico para médico. 

   Durante as horas que fiquei ali observando tudo, uma paciente na enfermaria tinha se machucado e estava com pontos na testa e um curativo que já havia sido trocado diversas vezes, pois ela se auto agredia e acusava as enfermeiras, na nossa frente, se estapeava com muita força, dizendo querer ir embora. Várias vezes ela veio pra cima de mim também, e eu com medo de ela me bater, me escondia atrás das enfermeiras. E não é pra menos que eu estava com medo, elas me mostraram as várias marcas de hematomas e cortes, resultrantes das agressões das pacientes. Trabalhar com psiquiatria realmente não é pra qualquer um, eu admiro muito elas, agora ainda mais. Por fim, a paciente teve que ser contida por 4 e amarrada. 

   Eu poderia contar o comportamento de cada um que observei no pátio, onde elas circulam livremente, com música ambiente, balanço, árvores, bancos, os quartos também são divididos. Lembrando que a clínica atende pelo SUS, então nem tudo é novinho, mas pelo que eu percebi não faltava nada, desde produtos de higiene, medicamentos, etc. A única coisa que é precária são as roupas, o hospital depende muito de doações nesse sentido, e muitas famílias não vão visitar ou levar roupas, sendo assim muitos pacientes ficam com roupas muito velhas, rasgadas, e isso contribui mais ainda para uma auto estima baixa, para conflitos internos. E uma coisa que achei muito errada é o fato das orientadas ficarem misturadas com as desorientadas. A pessoa já está com problemas, muitas vezes depressão ou dependentes quimicos, se vê presa, com roupas precárias, convive o dia todo com pessoas totalmente desorientadas, a probabilidade de pirar junto é muito grande. E a possibilidade de recuperação vai ficando cada vez mais difícil. 

   Quem nunca viu pessoalmente alguém com problemas mentais sérios, a ponto de ser desorientado, como eu nunca havia visto, deveria ver. É intrigante, e meche lá dentro com as suas crenças, com o seu modo de ver o ser humano. O ponto em que chega a mente humana é inacreditável, fiquei pensando em tanta coisa, e uma delas é até que ponto somos matéria orgânica e até que ponto somos alma e espírito. Porque olhando aquelas pessoas, elas não passavam de animais, não possuem razão, a tal chamada alma humana. Eram como animais agindo pelo seu instinto, uma falta de neurônios pode mudar uma pessoa a tal ponto de torná-la muito semelhante a um animal. Você pode achar que eu estou exagerando, mas eu vi pessoas assim, que se você falava com ela, ela não respondia, não entendia, e apenas procurava por comida e sombra. Alguns como zumbis, olhar longe, andavam desorientados, é muito triste e confuso, tudo o que você aprendeu sobre essência de ser humano até hoje, se dissolver diante dos seus olhos. O que somos nós, afinal? Muitas pessoas ali não terão a sua razão plena como nós, e aí? Elas são apenas matéria orgânica? Elas vão para o céu ou para o inferno? Se forem para o inferno elas não têm culpa de ter nascido assim, se forem para o céu elas vão ter a razão novamente quando chegar lá? Se eles têm alma como nós, onde está a manifestação disso? Sentimentos, dor e desejos são puramente da nossa mente, se somos parte espirituais também, o que será deles depois que a suas perturbadas mentes se decomporem na terra? Não estou insinuando que eles não são gente como nós, mas estou questionando o que somos nós? É essa a pergunta que eu faço depois de presenciar tudo isso com os meus próprios olhos. Se dizem que a nossa razão humana é o que nos difere dos animais, é a nossa alma, entã os humanos que não tem razão não têm alma? O que nos faz humanos então? 

   Bom, e um último ponto, é claro, o de valorizar tudo o que somos e temos. Como escrevi em um dos meus últimos posts, sempre há alguém em situação bem pior do que você. Portanto, sempre há uma maneira de ser feliz, apesar dos pesares.  

   Fico por aqui,
   NatY S.W. 
   

Um comentário:

Unknown disse...

nossa, fiquei impressionada com esse post. Pq só de ler, eu já fiquei com medo, meio receiosa.. nossa..
A gente reclama tanto da vida que nem tem noção do que nos rodeia pode ser bem pior. Se eu já fiquei chocada lendo, imagina vendo isso. Pra começar não sei se teria a mesma coragem que vc teve. :P


Beeeijiinhoo!